Fonte: revista Universo Visual
Problemas visuais não
detectados em alunos do ensino fundamental contribuem para a repetência e
evasão escolar. Números são alarmantes na rede pública
“A educação é a base da sociedade.” Para se tornar
concreta, a afirmação, propalada já diversas vezes por governantes,
intelectuais e formadores de opinião, passa também por uma bem-sucedida
atuação oftalmológica. Sabe por quê? Pois distúrbios oculares não
identificados e tratados em crianças da educação básica da rede pública
podem acarretar uma série de prejuízos. Entre eles: queda de rendimento e
dificuldade no aprendizado do aluno, piora na socialização, no
desenvolvimento psicomotor e na qualidade de vida, além de aumento dos
índices de repetência e até evasão escolar.
O programa de alfabetização solidária apoiado pelo MEC (Ministério da
Educação e Cultura) concluiu, por exemplo, que a maior causa de
abandono escolar é em razão dos problemas de visão, correspondentes a
aproximadamente 23% dos casos. Tal cenário no país é mais amplo e
complexo do que se imagina, com dados até certo ponto preocupantes.
Segundo estimativa do CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia), 25%
dos escolares do ensino fundamental podem apresentar alguma perturbação
oftalmológica, ao passo que 10% dessa faixa etária estudantil pode
necessitar de óculos. O Ministério da Saúde, por sua vez, aponta que 15%
das crianças da 1ª à 9ª séries de escolas municipais e estaduais
precisarão de consultas oftalmológicas. Dessas, 15% demandarão óculos.
Para se ter ideia da dimensão do problema, há no Brasil 24,2 milhões de
estudantes matriculados no ensino fundamental da rede pública, de acordo
com o Censo Escolar 2013.
Os erros de refração (miopia, astigmatismo e hipermetropia) não
corrigidos são a principal causa de deficiência visual em crianças
escolares, não só no Brasil, como também na América Latina e no resto do
mundo. As falhas refrativas não solucionadas antecipadamente podem
desencadear ambliopia, ou o chamado “olho preguiçoso”, que é a maior
causa de cegueira monocular infantil e atinge 4% das crianças
brasileiras.
Na avaliação do Presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
(CBO) e também Doutor em Oftalmologia e Professor Livre-Docente da
Universidade de São Paulo (USP), Milton Ruiz Alves, mais que os números,
alarmante é a dificuldade de se chegar às crianças e rastrear aquelas
com problema visual. “Isto é algo difícil em vários países e também no
Brasil. Os dados alarmantes são mundiais. Estima-se que 10% das crianças
poderiam ter o aproveitamento escolar melhorado com a correção de um
erro de refração”, afirma.
Outros distúrbios comuns nos educandos, associados a 1% e 2% das
ocorrências de baixa de visão, são catarata, estrabismo, glaucoma
congênito, toxoplasmose ocular, retinopatia e outras alterações com
riscos de cegueira. Na infância, o exame oftalmológico é essencial
porque o olho está em desenvolvimento até os sete anos. Essa idade,
inclusive, compõe o público-alvo da maioria das campanhas e ações
públicas do gênero existentes. O primeiro exame ocular é atualmente
feito aos seis anos, no início do primeiro ano escolar. “Mas a maior
prevalência de problemas oculares de erros de refração está em crianças
de 10 a 15 anos. Por isso, é preciso garantir que o escolar seja
avaliado todo ano”, alerta a Professora Doutora e chefe do Núcleo de
Oftalmopediatria da Unifesp, Célia Nakanami.