A Cegueira de Claude Monet
Quando um cantor
perde a voz, ele se aposenta. Também o pintor que não enxerga deve
abandonar a pintura, mas isso eu sou incapaz de fazer. Claude Monet.
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| Impressão: Nascer do Sol (1872). Claude Monet. Óleo sobre tela, 48x63cm. Marmottan Monet (Paris). |
Em 1873, o impressionante artista
Oscar-Claude Monet (1840-1926), com a impressionável pintura
Impressão, Nascer do Sol, gestou o termo
impressionismo para um movimento artístico inteiramente novo .
A técnica de Monet, - considerada mais tarde como umas das belas do
mundo - mostrava-se bastante peculiar. Caracterizada pela representação
da luz e movimento utilizando pinceladas soltas, as imagens formadas nas
telas aparentam ser de perto apenas borrões, mas, ao distanciar a
visão, o examinador passa a enxergar as formas nitidamente.
Monet não imaginava que, por conta de uma doença ocular, a “impressão”
do estilo que fundou se projetaria fielmente em sua vida. Com a
progressão da doença, ele passaria a ver o mundo turvado e delineado por
manchas coloridas, tal como o representava em suas telas. Também ele,
assim como os observadores de suas obras, precisaria alcançar de longe a
limpidez que não mais estaria diante de seus olhos. O pintor
conseguiria, mais tarde, se distanciar e encontrar tal nitidez — com a
ajuda da memória — no fundo de sua alma.
Diante das belas paisagens venezianas, em 1908,Monet começou a notar que
já não enxergava perfeitamente. Em 1912, aos 72 anos, ele procurou
especialistas relatando uma enorme quantidade de problemas com sua
visão. Queixava-se predominantemente de turvação visual e dificuldade na
percepção de cores. Constatada uma acuidade visual de 20/200 no melhor
olho, deram-lhe o diagnóstico de catarata nuclear bilateral.
A catarata adquirida é considerada a causa mais comum de cegueira (perda
visual completa) no Mundo. O tipo “nuclear” é o mais associado à perda
da diferenciação de cores nas fases iniciais. À medida que o cristalino
vai se opacificando, a visão vai ficando lenta e progressivamente
borrada, surge também uma perda da definição das letras e objetos. Com o
tempo, o aumento da opalescência do cristalino vai agravando o
borramento visual e então o paciente passa a ter dificuldade na visão
para perto e longe. Além da alteração da visão de cores, as imagens
costumam ficar “nubladas e enevoadas”.
A doença pode ter acometido Monet por conta das muitas horas em que
ficou com seus olhos expostos ao sol. Sabe-se que a radiação
ultravioleta é um clássico fator de risco para catarata, perdendo em
importância apenas para a idade avançada. Monet pintava ao ar livre,
preferencialmente ao meio dia, visto ser a representação do efeito que a
luz solar produz sobre a natureza uma importante característica do
impressionismo.
Como tratamento, foi-lhe recomendado cirurgia para o pior olho, mas,
embora a operação fosse relativamente segura nesta época, Monet resistiu
por medo de perder totalmente o pouco que lhe restava da visão (fato
que ocorreu com um amigo que fora submetido a mesma cirurgia).
Durante o período em que sofreu com a doença, ele produziu alguns de
seus trabalhos mais marcantes e característicos. Sua visão tornou-se
progressivamente mais acastanhada em sua essência; o artista enxergava
através de uma opacidade densa amarelo-marrom.
Não percebo mais as cores com a mesma
intensidade nem pinto a luz com a mesma precisão. O vermelho aparece
lamacento para mim; já o rosa, insípido; e os tons intermediários ou
menores me escapam por completo. O que eu pinto está cada vez mais
escuro, mais e mais como uma fotografia antiga.
A catarata limitava severamente sua discriminação de cores e, como forma
de “sobrecompensação”, Monet passou a pintar com tonalidades mais
intensas.
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| Water Lilies (1916). Claude Monet. |
Pinturas de
nenúfares e
salgueiros,
ao longo do período 1916-1922, exemplificam a mudança. Os tons se
tornaram mais enlameados e escuros, as formas surgem bem menos
distintas, sua sensibilidade de contraste está diminuída, as pinceladas
são mais fortes e as cores mais intensas.
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| À
esquerda: pintura de Monet da ponte japonesa em seu jardim em Giverny
(1899); A mesma cena (meio) que ele tentou capturar novamente entre
1918-1922 mostra que as cataratas turvaram sua visão e que o
amarelamento das lentes de seus olhos prejudicaram sua visão do azul e
do verde, deixando-o num mundo mais "vermelho e marron". À direita:
Imagem computadorizada criada por especialistas mostrando como Monet
enxergaria em 1924. |
Em 1920 a visão de Monet se deteriorou gravemente, ele já não era capaz
de distinguir os tons e, com o intuito de continuar as produções isento
de cometer erros, providenciou uma paleta em que mantinha uma ordem
regular de cores. Mais adiante, o artista tornou-se capaz de enxergar
apenas vultos, a partir de então, passou a pintar imagens que guardava
na memória.
Frustrado com a perda da visão, em 1922 ele escreveu a
Marc Elder:
Para
criar uma aura impressionista, confio apenas nos rótulos dos tubos de
tinta e na força do hábito dos meus 50 anos de trabalho.
Mais tarde, em uma entrevista, ele disse:
No
fim, terei que admitir que estou arruinando minha arte, parece que já
não sou capaz de produzir algo belo. Já destruí várias das minhas telas.
Hoje estou praticamente cego e deveria renunciar a pintura
completamente.
Em janeiro de 1923, o
Dr. George Clemenceau
convenceu Monet a se submeter à cirurgia. A operação foi realizada em
dois estágios: uma iridectomia preliminar seguida por uma extração
extracapsular da catarata.
Pós-recuperação, Monet tinha grande dificuldade para se adaptar. Ele não
conseguia enxergar com ambos os olhos ao mesmo tempo e se queixou de
que os objetos adquiriram uma curvatura anormal.
Sinto que se eu der um passo, vou cair
no chão. Perto ou longe, tudo é deformado e dúbio. Enxergar dessa
maneira é intolerável. Persistir parece perigoso para mim. Se eu estava
condenado a ver a natureza como a vejo agora, preferiria continuar cego e
manter as memórias das belezas que sempre enxerguei.
Monet também se queixava da marcante diferença entre a percepção de
cores entre os olhos, dizendo que tudo que via com seu olho afácico
adquirira uma tonalidade azul. Mais tarde, óculos com uma tonalidade
verde-amarelo lhe foram prescritos, o que o levou para fora de seu
desespero. Monet pintou até a sua morte, em dezembro de 1926, por doença
pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão.
A concepção global de que pintores produzem suas obras traduzindo
“aquilo o que enxergam” suscitou a compreensão geral de que os olhos de
Monet eram não somente a janela de sua alma, mas também a porta para seu
universo artístico. Presume-se que qualquer mudança significativa na
visão do pintor afetaria sua interpretação e tradução artesanal do
mundo. A catarata seria prejudicial aos detalhes fundamentais de seu
estilo, tais como a sensibilidade requintada à luz, às cores e aos
detalhes morfológicos. Podemos nos perguntar então a que se atribui a
grandeza de Monet?
A excelência artística de Monet tem raiz por detrás do cristalino, na
organização espetacular da sua "lente cerebral". Enquanto enfrentava um
grave declínio da função ocular, o gênio escalou alturas da visão
artística. A quase total cegueira de Monet, aliada aos seus esforços
incansáveis para vencer a deficiência, provocou ao fim um efeito
positivo sobre o seu trabalho.
A luta apaixonada de Monet por sua arte faz-me lembrar as encantadoras palavras de
Victor Hugo em sua magnânima obra
Os Trabalhadores do Mar:
...O consentimento
da alma recusado ao desfalecimento do corpo é uma força imensa.[...] Os
teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem um assomo, quem é
apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma
virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo
dos grandes corações está nesta palavra: - Perseverando. A perseverança
está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua
do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a
questão é ir a esse alvo. [...] Não deixar discutir a consciência, nem
desarmar a vontade, é assim que se obtém o sofrimento e o triunfo. Na
ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a
ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não
assim os fortes. Perecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza
deles. [...] A perda das forças não esgota a vontade, crer é apenas a
segunda potência; a primeira é querer; as montanhas proverbiais que a fé
transporta nada valem ao lado do que a vontade produz.(Victor Hugo, 1866).
REFERÊNCIAS:
1.MARMOR, MF. “Ophthalmology and Art:
Simulation of Monet’sCataracts and Degas’ Retinal Disease.” ARCH
OPHTHALMOL/VOL 124, DEC 2006.
2.Lanthony P. Cataract and the painting of Claude Monet. Points de Vue. 1993;29:12-25.
3.Ravin JG. Monet’s cataracts. JAMA. 1985;254:394.399.
4.Projeto Diretrizes “Catarata: Diagnóstico e Tratamento”. Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina